Lara Laranjo é destaque na Revista Referência Compostagem
Na entrevista concedida à Revista Referência Compostagem, a nossa Diretora-Presidente, Lara Laranjo, relembra como sua trajetória no setor começou por meio de uma política pública de distribuição de composteiras em São Paulo e evoluiu até a liderança da associação. Na conversa, ela destaca que a compostagem precisa deixar de ser encarada como um projeto isolado e passar a ser reconhecida como infraestrutura urbana e climática essencial para a sustentabilidade e a segurança hídrica das cidades.
Leia a entrevista abaixo:
Revista Referência Compostagem: Como a compostagem entrou na sua trajetória profissional?
Lara Laranjo: Através de uma política pública. Em 2014 eu participei do programa “composta SP”, da secretaria de meio ambiente da prefeitura de SP na gestão Haddad, que distribuiu 2000 kits de composteira doméstica.
RRC: O que a motivou a dedicar sua carreira a essa área?
LL: Eu sou bióloga, formada pela UNESP Rio Claro, e me lembro de querer muito uma composteira e não ter dinheiro pra comprar pq as caixas eram caras. Então quando ganhei o kit do projeto, fiquei super feliz e logo em seguida pensei em fazer composteiras com valores mais acessíveis pra que quem quisesse e não tivesse como comprar, como eu, pudesse adquirir uma. E aí surgiu a ideia do MInhocaria de fazer composteiras de baldes reciclados.
RRC: Quais foram os principais desafios para consolidar essa atuação?
LL: Acho q o grande desconhecimento das pessoas sobre o tema. Hoje já temos mais programas, entrevistas, etc comentando sobre o tema, mas há 12 anos atrás ninguem sabia o que era compostagem. Ainda hoje quando me vêem com uma bombona na rua perguntam se é lavagem pra porco ou quando me vêem com uma camiseta com minhoca perguntam se eu vendo pra pesca! rs! Acredito q a falta de informação e a falta de educação ambiental das pessoas, em saber o que acontece com os resíduos delas e como separar corretamente foram e ainda são os principais problemas. Além é claro da falta de investimento financeiro na área.
RRC: Quais são hoje as principais frentes de trabalho da Associação Brasileira de Compostagem?
LL: A AB|Compostagem atua em três grandes frentes que consideramos essenciais para consolidar a compostagem como uma solução estratégica para o Brasil.
A primeira é o fortalecimento do mercado, reunindo empresas, empreendedores, pesquisadores e profissionais de toda a cadeia para promover capacitação, troca de experiências, produção de conhecimento, certificações, eventos e desenvolvimento técnico do setor.
A segunda é a regulação e as políticas públicas. Trabalhamos em diálogo permanente com os poderes públicos, órgãos reguladores e entidades representativas para contribuir tecnicamente na construção de políticas, normas e instrumentos que favoreçam a expansão da compostagem em todo o território nacional.
A terceira frente é a sensibilização e o engajamento da sociedade. Acreditamos que a compostagem só alcançará seu verdadeiro potencial quando cidadãos, empresas e instituições compreenderem o valor da separação dos resíduos orgânicos e passarem a incorporá-la como uma prática cotidiana.
Esses três eixos se complementam e refletem nossa missão de transformar a compostagem em uma política estruturante para a gestão de resíduos, a regeneração dos solos e o enfrentamento das mudanças climáticas.
RRC: Como a associação tem contribuído para ampliar a compostagem no Brasil?
LL: A AB|Compostagem nasceu justamente para conectar e fortalecer um setor que vinha crescendo de forma muito fragmentada. Hoje reunimos empresas, especialistas, pesquisadores, gestores públicos e organizações que compartilham o propósito de ampliar a compostagem no país.
Nossa atuação acontece por meio da articulação institucional, da produção e disseminação de conhecimento técnico, da promoção de eventos, cursos e encontros nacionais, além da participação ativa em debates sobre legislação, políticas públicas e regulação.
Também buscamos dar visibilidade ao setor, demonstrando que a compostagem não é apenas uma alternativa para destinação de resíduos orgânicos, mas uma infraestrutura essencial para cidades mais sustentáveis, para a agricultura regenerativa, para a segurança hídrica e para a mitigação das mudanças climáticas.
Ao fortalecer quem já atua na área e estimular novas iniciativas, contribuímos para criar um ambiente mais favorável ao crescimento da compostagem em todas as escalas.
RRC: O país tem avançado na adoção da compostagem? O que ainda precisa evoluir?
LL: O Brasil tem avançado, sem dúvida. Observamos um crescimento consistente do número de empreendimentos, de iniciativas municipais, de soluções privadas e do interesse da sociedade pelo tema. A compostagem deixou de ser vista apenas como uma prática ambiental e passou a ser reconhecida como uma estratégia econômica, climática e de desenvolvimento sustentável.
No entanto, ainda estamos muito distantes do potencial brasileiro. A maior parte dos resíduos orgânicos continua sendo destinada a aterros sanitários, desperdiçando nutrientes, gerando emissões de gases de efeito estufa e aumentando custos para os municípios.
Precisamos avançar principalmente na segregação dos resíduos na origem, na estruturação de sistemas de coleta específicos para os orgânicos, na ampliação da infraestrutura de compostagem, na capacitação de profissionais e gestores públicos e na construção de políticas públicas que incentivem essa cadeia.
O conhecimento técnico existe. A tecnologia também. O desafio agora é transformar esse potencial em escala.
RRC: Quais ações da associação têm gerado maior impacto para o setor?
LL: Um dos maiores impactos da AB|Compostagem tem sido a capacidade de reunir diferentes atores em torno de uma agenda comum. O setor ganhou uma representação nacional capaz de promover diálogo técnico, construir consensos e defender pautas estratégicas para seu desenvolvimento.
Destacamos também a realização de eventos, encontros e ações de capacitação que aproximam empresas, pesquisadores, gestores públicos e profissionais, fortalecendo redes de colaboração e acelerando a disseminação de boas práticas.
Outro resultado importante é a participação ativa da associação em discussões regulatórias e institucionais, levando conhecimento técnico qualificado para processos decisórios que influenciam diretamente o futuro da compostagem no Brasil.
Mais do que executar projetos isolados, buscamos fortalecer todo o ecossistema da compostagem, criando condições para que o setor cresça de forma consistente, inovadora e com segurança técnica.
RRC: Como você enxerga o futuro da compostagem no Brasil nos próximos anos?
LL: Vejo um futuro extremamente promissor. O mundo caminha para modelos econômicos cada vez mais circulares e regenerativos, e a compostagem ocupa uma posição estratégica nessa transformação.
Ela conecta gestão de resíduos, agricultura, recuperação dos solos, segurança hídrica, biodiversidade, redução das emissões de gases de efeito estufa e adaptação às mudanças climáticas. Poucas soluções conseguem gerar tantos benefícios simultaneamente.
Acredito que, nos próximos anos, veremos uma expansão significativa da coleta segregada de resíduos orgânicos, o crescimento de empreendimentos de compostagem em diferentes escalas, maior participação do setor privado e políticas públicas mais estruturadas para incentivar essa cadeia.
Mais do que uma tecnologia de tratamento de resíduos, a compostagem tende a ser reconhecida como uma infraestrutura essencial para cidades resilientes, para a produção sustentável de alimentos e para uma economia de baixo carbono.
Na AB|Compostagem, seguimos trabalhando para que esse futuro aconteça o quanto antes, porque acreditamos profundamente que compostar é regenerar. É transformar um passivo em recurso, resíduos em fertilidade e desafios ambientais em oportunidades de desenvolvimento. Afinal, como diz o nosso manifesto, o futuro é compostável.

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